Sou professor, pobre de mim, faço parte do melhor país do mundo, país de virtudes e virtuosos, bons políticos, bons empresários, povo simpático uma comunidade internacional maravilhosa. O melhor Estado do mundo, O paradigma do impoluto. As instituições mais sérias são as nacionais, os políticos mais sérios e preocupadíssimos com a astronómica pobreza nacional (nota-se pelas naves espacias em que se fazem transportar).
Ùltimamente tenho cobrado dinheiro para os alunos passarem, não me levem a mal, o meu salário é processado a cada 45 dias, as minhas contas a cada 30 dias. Prometeram que continuaria a estudar, ainda não chegou a minha vez, acredito que virá depois da vez dos filhos e irmãos de Sua Excia. o Ministro da Educação. A ONP não resolve os meus problemas, apenas convoca-me para a deposição de flores numa praça qualquer a cada 12 de Outubro. Que fazer ainda é uma organização democrática de massas, um dia vai mudar, tal como o meu salário.
Ando cabisbaixo, envergonhado, acho que todos já descobriram que o que acontece de mal no país é por minha culpa. As cidades estão porcas, as estradas estão arrumadas nos buracos. A água está disciplinada, sai apenas de madrugada. As alfândegas são a instituição mais séria que existe, os processos são tratados por qualquer agente. Há desvios de fundos, as cadeias estão superlotadas, minha culpa, não soube ensinar as pessoas a serem honestas. Os deputados insultam-se no parlamento e é minha culpa não os soube ensinar a ser pessoas. Os polícias não são honestos, minha culpa, não os ensinei nada sobre honestidade. Um ministro nomeiou inspector, um director provincial que cobrava coimas, coitado se o tivesse ensinado que é errado promover ladrões não o faria.
Para algumas pessoas o Estado trabalha para elas, não as ensinei que deveriam trabalhar para o Estado. Carros, casa, rancho mensal, telefone, escola da mulher e filhos o Estado paga. Culpa minha, não ensinei a viver do próprio suor (aliás não suam sequer, têm ar condicionado pago pelo estado).
Há-de convir a qualquer um, espero, aliás já sabem, que eu sou a nódoa no pano. Para que o país floresça e caminhe rumo á eliminação da pobreza absoluta, ao desenvolvimento, harmonia e paz efectiva, nada me resta senão extinguir-me, elimino o mal pela raíz. Não haverá mais roubos ou atropelos a norma que seja. Tudo andará sobre os carris. Extirpado o mal que sou. Mea culpa, mea massima culpa.
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